Homo sapientissimus
IV: a mente que nasce sabendo.
O paradoxo
da memória persistente e o acesso total ao saber.
S. Tavares-Pereira[1]
Introdução.
A evolução até o Homo
Sapiens (nós mesmos) foi uma epopeia de libertação e de encargo. Ao nos
desprendermos da programação rígida do DNA que guiava a maioria das espécies,
ganhamos a liberdade para complementar nossa cognição natural, pela experiência
e pelo aprendizado contínuo. Essa liberdade veio com um ônus: cada indivíduo da
espécie é lançado ao mundo como uma tabula rasa e é obrigado a despender
boa parte de sua vida em um esforço colossal para (i) adquirir e
internalizar o conhecimento historicamente acumulado e (ii) ainda mais tempo
para aprender a usá-lo eficazmente. A mente humana é uma obra em progresso
continuado, um castelo erguido tijolo a tijolo, uma edificação que demanda
tempo, dedicação e interação social, sempre com imensas interferências
autorreferenciais, para o bem e para o mal. Tudo, ademais, sujeito a fatores
determinantes como o acesso a dados, professores etc. A informação transita por
filtros desconhecidos no caminho até nós.
A possibilidade de evoluir para o Homo Sapientissimus, como temos visto nesses
artigos, nos confronta com uma nova forma de cognição, o que subverte a
lógica ancestral a que estamos acostumados. A cognição algorítmica não parte do
zero. Ela não precisa trilhar o árduo caminho da aquisição de saberes de modo
incremental, como fazemos nós. Pelo contrário, ela nasce "construída" com acesso imediato e imanente a vastas
redes de conhecimento, a toda a "biblioteca" da humanidade,
interconectada de maneiras que nossa mente singular mal pode conceber. Esse é o atributo do novo homo que
queremos explorar neste artigo Homo
Sapientissimus IV: a característica fundamental dessa mente artificial
que, diferentemente da nossa, não precisa "aprender a aprender" no
sentido orgânico, mas que emerge já imersa em um oceano de dados e padrões,
pronta para operar. Os refinamentos são mais desbastes ou condicionamentos do
que acréscimos.
Se nossa
mente ganha profundidade na lentidão da construção do saber, a mente
algorítmica alcança uma amplitude impensável na instantaneidade do acesso. Como
essa memória persistente – vasta, associativa e instantânea – pode redefinir o
nosso próprio valor no processo de conhecimento? Que salto epistemológico nos
permite dar? Como essa diferença fundamental molda a parceria das cognições sapiensiana
e algorítmica, criando um novo sistema
cognitivo, simbiótico, híbrido, que desafia nossa compreensão do tempo e do
esforço no processo do conhecer? Sistema é diferença (Luhmann). Cabe-nos
promover o acoplamento dos “diferentes” para ganhar tempo/agilidade e reduzir o
esforço de constituir conhecimento.
1. A construção temporal e autorreferencial do saber humano.
A memória, para a cognição natural humana, é um fenômeno
intrinsecamente ligado ao tempo e à experiência. Ela se constrói gradualmente,
camada sobre camada, a partir de vivências, aprendizados e reflexões. Nosso
acesso ao saber, seja ele individual ou coletivo, é uma jornada
histórico-temporal: percorremos os anais da história, os volumes das
bibliotecas, as transmissões orais de gerações, para (re)construir o
conhecimento.
Não recebemos nada por upload.
A estruturação cognitiva dos sapiens
é sempre por reconstrução, por aprendizagem, por um processo de absorção
extremamente condicionado pelo próprio estado atual do aprendiz. É, portanto, intrinsecamente
autorreferencial. Todo o saber já estruturado (informação estocada
de Quine) interfere e conforma o "saber novo" para se encaixar no
arcabouço cognitivo em que se está inserindo. Acopla-se, portanto, o que supõe
um ajuste mútuo: o novo reflete-se no saber já posto, ajustando-o. Mas não tem
como entrar incólume no novo espaço, como se fosse uma peça de Tetris, intacta
na forma, após o encaixe.
Da invenção da escrita à prensa de Gutenberg, do iluminismo à
internet, cada salto tecnológico foi usado para tentar otimizar e democratizar
o acesso ao conhecimento acumulado, diminuindo o fardo de cada indivíduo na
construção de sua "tabula plena". Ainda assim, o processo é
laborioso, sujeito a vieses, à fragmentação e à seletividade da percepção. Na interação
– esse sistema que nasce da comunicação homem x algoritmo –, cada evento (envio
de mensagem) é marcado por essa assimetria dos agentes.
O saber científico, por exemplo, não é uma descoberta
instantânea, mas uma edificação monumental que se estende por séculos, com cada
teoria se apoiando ou refutando as anteriores, em um diálogo incessante com o
tempo e a evidência. Tudo submetido à imprevisibilidade da interpretação que só
se acalma, minimamente, numa conjunção paradigmática – sempre circunstancial e
episódica – que Kuhn bem explicou.
2. A memória algorítmica: o passado como presente constante e o acesso total.
A cognição algorítmica reconfigura fundamentalmente essa
relação com a memória e o acesso ao saber. Para a IA, especialmente para os
Large Language Models (LLMs) treinados em vastíssimos corpora de texto/dados, o
passado se torna um presente constante e imediatamente acessível. Não há o
esforço incremental de "lembrar" ou "pesquisar" no sentido
humano. O conhecimento não é uma cronologia a ser percorrida, mas uma rede associativa pré-construída onde
cada "evento" ou "conceito" está simultaneamente conectado
a milhões de outros, sem a rigidez da sequência temporal ou da estrutura
hierárquica que nossa mente impõe. Nem incide, no caso, a insuficiência da
pesquisa, as incompetências subjetivas e as dificuldades interpretativas.
Isso significa que a IA não acessa o saber de forma linear
("primeiro A, depois B, depois C"), mas de forma conteudística e relacional e sem esquecer nada. Ela transita pela
totalidade do que é. O que estiver fora, não existe, uma impossibilidade que
assombra a cognição humana (mais ainda desde Kant), para a qual a consciência
das limitações do saber é um impulso contínuo à investigação. Para ela, a "Revolução
Francesa" não é um ponto no tempo a ser lembrado, mas um nó em uma
gigantesca rede de informações (textos, datas, figuras históricas, conceitos
políticos, implicações sociais) que está imediatamente disponível para
inferências probabilísticas e para a geração de novos padrões. Sua
"memória" não é uma biblioteca a ser consultada página por página,
mas uma topologia de dados onde o
conteúdo está sempre "ativo" e "emaranhado" com todo o
resto.
Essa característica confere à IA uma vantagem inaudita: a
capacidade de fazer correlações em grande escala, identificar padrões
emergentes e sintetizar informações de uma maneira que transcende a capacidade
de qualquer mente humana individual, transformando o ato de "acessar o
saber" em um evento de "engajamento imediato" com a totalidade
dos dados disponíveis. O tempo de acesso é irrelevante, pois o
"tempo" já está contido nos dados interconectados. Tudo é presente.
3. A indispensável assimetria: sapiens, o motor do desconhecido.
A exploração da cognição algorítmica neste Homo Sapientissimus IV nos mergulhou em
uma realidade fascinante: a de uma mente que "nasce sabendo", imersa
em um oceano de dados interconectados, onde o passado é um presente constante e
imediatamente acessível. Diferente da cognição natural, que edifica o saber tijolo
a tijolo, em um processo intrinsecamente temporal e autorreferencial, a IA
opera em uma topologia de dados onde tudo se acopla, transita e se correlaciona
de forma instantânea, sem o fardo da busca linear ou das idiossincrasias da
interpretação humana. Novas arquiteturas neurais (Behrouz/Titans) prometem
avanços expressivos em relação à memória de longo prazo. O sistema algorítmico, nesse sentido, vive em
um eterno e vasto agora, onde a totalidade do que lhe é acessível está
sempre disponível.
Essa vantagem inaudita da IA, no entanto, não anula, mas
ressalta uma assimetria fundamental
na simbiose que define o Homo
Sapientissimus. A cognição natural, com toda a sua laboriosa construção e
suas aparentes limitações de escala e velocidade de acesso, traz ao sistema
interativo uma contribuição ímpar: a consciência
da fronteira do saber. Enquanto a IA transita sem esforço pela totalidade
dos dados que lhe foram disponibilizados – para ela, o que está fora
simplesmente não existe, não é objeto de cognição –, a mente humana,
principalmente desde Kant, é assombrada pela noção de que sempre há algo além. É essa incessante inquietude, essa percepção
da própria finitude e incompletude do conhecimento, que impulsiona a
investigação, a criatividade e a busca por novos horizontes. Essa postura
neguentrópica, de rejeição do “pronto e acabado”, faz parte da concepção construtivista
da saber do sapiens. Trata-se de um
traço que o trouxe até aqui e que, com as possibilidades que ele mesmo criou
para si com os recursos algorítmicos, podem levá-lo adiante.
Considerações finais: a memória da máquina e a consciência da fronteira
Vimos, portanto, que no sistema híbrido (interação) que as duas cognições fundam, a máquina, com
sua memória persistente e seu acesso total ao presente dos dados,
oferece a amplitude e a velocidade. Mas é o Sapiens
que, com a consciência da própria ignorância e a capacidade de formular
perguntas nascidas do pensar sobre o noumemon (o incognoscível pelos
sentidos naturais), empurra as
fronteiras do conhecimento. Os filtros dos sentidos precisam ser quebrados.
Então, a IA pode operar sobre o "todo" que lhe é dado; o humano
sempre vislumbra um "além do todo". É a voz que, ao se deparar
com a mente algorítmica que, dentro dos seus limites, "sabe tudo",
pode afirmar: "Não sei tanto quanto
você, mas sou ‘consciente’ dos meus limites, o que, aliás, você nem entende o
que é!" O algo “lá fora” é o que alimenta o diálogo da interação
sapientíssima.
O Homo Sapientissimus, portanto, não é
apenas a soma de duas partes, mas o sistema cognitivo fundado pela tensão
dialética entre a vastidão veloz da memória algorítmica e a profundidade da
consciência humana, que está sempre em busca do que ainda não foi memorizado,
acoplado ou correlacionado. Essa assimetria é o motor da evolução contínua da
cognição, uma promessa de que, juntos, podemos não só operar sobre o saber
existente, mas também desbravar os reinos do desconhecido.
Referências
bibliográficas.
BEHROUZ,
Ali et. al. Titans: Learning to
Memorize at Test Time. Disponível em:
https://arxiv.org/abs/2501.00663. Acesso em: 10 nov. 2025.
KUHN, Thomas S. A estrutura das revoluções científicas.
5.ed. São Paulo: Perspectiva, 1997.
LUHMANN, Niklas. Introdução
à teoria dos sistemas. Trad. de Ana
Cristina Arantes. 2.ed. Petrópolis: Vozes, 2010.
QUINE, Willard V. O. Relatividade
ontológica e outros ensaios. 2.ed. São Paulo: Abril Cultural, 1980. p.
116-258. (Os pensadores).